
Representantes de sindicatos patronais e entidades que defendem a transparência de informações públicas divergem sobre o alcance do projeto de lei que regulamenta a atividade de lobby. O PL 2.914/2022 foi tema de audiência pública nesta quarta-feira (9) na Comissão de Fiscalização e Controle (CTFC).
Para as Confederações Nacionais da Agricultura (CNA), do Comércio (CNC) e do Transporte (CNT), o projeto de lei não pode impor restrições à atuação dos sindicatos patronais. Segundo os representantes, a Constituição Federal assegura às entidades a defesa de diretos e interesses sem interferência ou intervenção do poder público.
A coordenadora da assessoria de relações institucionais CNA, Maísa Barbosa de Morais, defende regulamentação do lobby. Mas adverte que o “excesso de burocracia pode obstaculizar o acesso aos agentes públicos”. O advogado Fernando Melo, da Diretoria Jurídica e Sindical da CNC, propõe a exclusão dos sindicatos do rol de entidades reguladas pelo PL 2.914/2022.
— É importante que conste do projeto de lei que as entidades sindicais não estarão sujeitas a ele. Qualquer iniciativa que, sem razoabilidade, venha a mitigar nossa liberdade de atuação é flagrantemente eivada de inconstitucionalidade. O sindicato não atua no interesse egoístico, privado ou particular. Atua no interesse de um direito coletivo, previsto na Constituição — argumentou.
Representantes dos institutos Ethos, Transparência Brasil e Transparência Internacional defenderam a ampliação do alcance do PL 2.914/2022. Para as entidades, os mecanismos previstos no projeto são insuficientes par assegurar a transparência total.
Para Juliana Sakai, diretora-executiva do Transparência Brasil, a sociedade precisa acompanhar como as decisões do governo são influenciadas por lobistas do setor privado. Ela defendeu a aprovação de uma emenda do senador Alessandro Vieira (MDB-SE), que prevê a criação da agenda nacional eletrônica:
— A agenda centraliza na Controladoria Geral da União (CGU) o registro de todas as solicitações de audiências, documentos e reuniões realizadas. Um local único onde a sociedade pode, de forma eficiente, acessar as informações a respeito de quem está fazendo quais reuniões e onde. Isso é fundamental para um controle efetivo, e não apenas pro forma.
O analista político sênior da Transparência Internacional André Amaral criticou um dispositivo do PL 2.914/2022 que, segundo ele, libera os advogados para a prática do lobby no Poder Legislativo.
— O projeto coloca que advogados são uma exceção, que não precisam ser registrados na prática de atos no âmbito de processos legislativos. Isso é um problema. É preciso evitar haja umshadowlobby, um lobby abaixo de radar, ou até indiretamente uma reserva de mercado especial — advertiu.
A audiência pública contou ainda com representantes do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) e do Tribunal de Contas da União (TCU). Para Fábio Henrique Granja e Barros, chefe da Auditoria Especializada em Métodos e Inovação do TCU, o projeto de lei “é um avanço” para “mitigar comportamentos oportunistas”.
— Mas a transparência tem que ser total. Seria muito oportuno colocar toda essa transparência dentro de um sítio eletrônico, numa área de fácil acesso, onde a agenda desses agentes públicos e detentores de cargos relevantes na administração estivesse disponibilizada — não quatro dias depois, mas no momento em que fosse realizada. Caso contrário, a gente vai estar dando uma meia transparência — afirmou.
A audiência pública foi sugerida pelo senador Izalci Lucas (PSDB-DF), relator do PL 2.914/2022 na CTFC. Ele disse que pretende apresentar o parecer sobre a matéria após um segundo debate sobre o tema, marcado para a próxima quarta-feira (16).
— Nosso objetivo é de fato tratar essa matéria de forma célere. Como a reforma tributária, são mais de 30 anos que estamos falando sobre isso. A gente precisa, em determinado momento, aprovar. Após a audiência, entraremos na elaboração do relatório para tentar aprovar esta matéria ainda este ano — afirmou.
O presidente da CTFC, senador Omar Aziz (PSD-AM), defendeu a regulamentação do lobby.
— Quando a gente fala a palavra lobby já se associa à corrupção, à compra de parlamentares. Mas o lobby regulamentado não pode ser crime. Em outros países, ele é regulamentado de forma muito transparente. Temos que avançar nessas discussões. Se vamos aprovar ou não, é outra questão — argumentou.
O relator do PL 2.914/2022 na Câmara, deputado Lafayette de Andrada (Republicanos-MG), também participou da audiência pública. Para ele, a atividade de lobby é alvo de um “estigma”.
— O Brasil ficou muito atrasado na regulamentação do lobby, principalmente pelo estigma da palavra. Ela sempre teve um significado de algo a ver com corrupção, mala preta, algo negativo. Sempre que se falava em regulamentar o lobby, vinha imediatamente de setores da imprensa e da sociedade alguma coisa como regulamentar a corrupção. No fundo, o que desejamos é incentivar que acabe a representação oculta de interesse — explicou.
Senado Federal Vetado integralmente projeto que protegia benefício social de trabalhador safrista
Senado Federal Dr. Hiran critica desincompatibilização em eleição suplementar de Roraima
Senado Federal Leila Barros cobra transparência sobre situação do BRB Mín. 22° Máx. 36°