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Tráfico de Pessoas no Brasil: Raízes da Exploração e Novos Desafios Tecnológicos

País registra alta em notificações de saúde, expansão de redes criminosas para o sudeste asiático e desafios estruturais no combate ao crime.

30/07/2026 às 11h26
Por: Alline Portela
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Tráfico de Pessoas no Brasil: Raízes da Exploração e Novos Desafios Tecnológicos

Nesta quinta-feira (30), data em que se celebra o Dia Mundial de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, levantamentos conjuntos da Defensoria Pública da União (DPU), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, da Polícia Federal e de pesquisas da Universidade Federal de Goiás (UFG) evidenciam a gravidade e a transformação do crime no país.

Entre 2017 e 2025, 238 brasileiros foram resgatados em operações oficiais, enquanto o Sistema Único de Saúde (SUS) computou 3.117 notificações de casos suspeitos ou confirmados apenas em 2025, o que representa um acréscimo de 29,9% em relação ao período anterior.

Especialistas e órgãos de proteção ressaltam que os números oficiais revelam apenas uma parcela do problema, acentuado pela subnotificação e pela complexidade na identificação das vítimas. Tipificado no Brasil pela Lei nº 13.344/2016, o crime abrange o aliciamento, transporte e alojamento de pessoas mediante violência, coação ou fraude, com finalidades que vão desde a exploração sexual até o trabalho análogo à escravidão, servidão, adoção ilegal e remoção de órgãos.

 

O Cenário em Goiás e as Rotas Internacionais

Goiás destaca-se negativamente no panorama nacional, ocupando posições de relevância nos registros de investigações da Polícia Federal. Em 2025, o estado contabilizou 10 inquéritos abertos — mesmo patamar de Paraná e Rio de Janeiro, e atrás apenas de São Paulo, que liderou com 46 casos.

Pesquisas coordenadas pela UFG apontam que Goiás integra rotas internacionais de tráfico voltadas à exploração sexual comercial, tendo como destinos frequentes países europeus como Espanha e Portugal. O perfil predominante abrange mulheres jovens e travestis em vulnerabilidade socioeconômica.

Além disso, municípios goianos como Luziânia (86,4), Trindade (84,8) e Planaltina (84,1) registram taxas expressivas de estupro por 100 mil habitantes, fator associado por especialistas a um ambiente propício ao aliciamento.

 

Perfil das Vítimas e Vulnerabilidades

O relatório aponta que a pobreza é o fator de vulnerabilidade primordial, citada por 95% dos entrevistados, somada a condições socioeconômicas precárias (22%), baixa escolaridade (18%) e situação migratória (14%).

O perfil de exploração varia conforme marcadores sociais:

  • Trabalho Escravo: Em 2024, homens cisgênero representaram 85,3% das vítimas resgatadas nessa modalidade.

  • Exploração Sexual: Mulheres e meninas concentram a maior parte dos registros de fins sexuais. O Itamaraty destacou que 3,2% dos casos internacionais em 2024 envolveram mulheres transgênero.

  • Crianças e Adolescentes: Corresponderam a quase 30% dos atendimentos do SUS. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) mapeou mais de 17.600 pontos de vulnerabilidade à exploração sexual infantil nas rodovias federais.

  • Raça e Gênero: Pessoas pretas e pardas representaram 55,6% das vítimas identificadas em episódios de ameaça e agressão. No tocante à imigração, paraguaios (68%) e bolivianos (23%) lideraram as solicitações de residência por refúgio de tráfico em 2024.

 

A Nova Face do Crime: Scam Centers no Sudeste Asiático

Autoridades identificaram uma mudança recente no perfil da exploração internacional. Entre 2025 e 2026, intensificou-se o aliciamento de brasileiros — comumente com habilidades em informática — para centros de fraudes digitais (scam centers) instalados em países como Filipinas, Camboja, Mianmar e Laos.

Atraídas por falsas promessas de altos salários, as vítimas têm documentos retidos e passam a sofrer cárcere privado. Sob coação e violência, são obrigadas a aplicar golpes financeiros online, incluindo fraudes com criptomoedas e o esquema de falsa intimidade conhecido como pig butchering.

 

Obstáculos Institucionais e Ações de Repressão

A atuação coordenada do Ministério Público Federal foi concentrada na UNTC (Unidade Nacional de Enfrentamento do Tráfico Internacional de Pessoas e do Contrabando de Migrantes), que atuou em mais de 1.100 processos e denunciou 216 pessoas entre 2025 e meados de 2026.

Apesar disso, o combate esbarra em barreiras estruturais:

  • Funil Institucional: Entre 2024 e 2026, apenas 46,6% das denúncias enviadas à plataforma Comunica PF resultaram em inquéritos formais, devido à escassez de evidências digitais ou dificuldades no enquadramento legal.

  • Provas e Convergência: O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aponta que a falta de provas robustas dificulta condenações. Paralelamente, observa-se uma simbiose com o estelionato eletrônico — crime que disparou 429,8% no país desde 2018 —, apontado como uma das fontes de financiamento das redes criminosas.

O governo federal mantém ativo o IV Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (2024-2028) para integrar dados e fortalecer a assistência internacional.

 

Canais de Denúncia

  • Disque 100: Direitos Humanos e tráfico de crianças.

  • Ligue 180: Violência contra mulheres e meninas.

  • Polícia Federal: Telefone 194.

  • Polícia Rodoviária Federal: Telefone 191.

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