
O câncer de mama é o mais incidente entre as mulheres no Brasil e no Ceará, excluindo os tumores de pele não-melanoma. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), são estimados 78.610 novos casos por ano no país, dos quais 3.250 no Ceará, em cada ano do triênio de 2026 a 2028. Esse cenário exige uma rede preparada para identificar a doença e disponibilizar tratamento às pacientes nas diferentes regiões do estado.
Segundo a coordenadora das Redes de Atenção à Saúde da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), Rianna Nobre, a ampliação da assistência oncológica vem sendo trabalhada desde 2023, com a implantação de serviços no interior e na capital. “É importante destacar o avanço com a interiorização e a regionalização de novos serviços de alta complexidade, oferecendo tratamento oncológico para as nossas mulheres”, afirma.

Para a realização de mamografias, a Rede Sesa conta atualmente com 25 equipamentos: 22 nas policlínicas regionais e outros três em Fortaleza, sendo um no Hospital Geral de Fortaleza (HGF), um no Instituto de Prevenção do Câncer (IPC) e um no Hospital Universitário do Ceará (HUC).
Os mamógrafos estão distribuídos pelas cinco regiões de saúde: Fortaleza, Norte, Cariri, Sertão Central e Litoral Leste/Jaguaribe, e a presença dos equipamentos em diferentes municípios permite realizar exames mais perto de onde as mulheres vivem. Essa estrutura se articula com a ampliação dos serviços hospitalares de tratamento, aproximando das pacientes etapas do cuidado antes mais concentradas na capital.
Para Rianna Nobre, a ampliação da assistência oncológica vem sendo trabalhada desde 2023 e inclui a mobilização dos municípios para identificar e encaminhar as mulheres que precisam realizar mamografia. “Não apenas no mês de outubro, mas mês a mês, a gente vem trabalhando isso”, afirma. Essa busca ativa ocorre em articulação com as equipes da atenção primária nos territórios.
Em todo o Ceará, foram registradas 107.392 mamografias em mulheres de 50 a 74 anos em 2025. Para 2026, o balanço parcial reúne 49.361 exames nessa mesma faixa etária. Os números são do Sistema de Informação do Câncer (Siscan), disponíveis no Datasus/Tabnet, com dados atualizados até 20 de julho de 2026 e extraídos em 29 de julho. O levantamento abrange os registros estaduais, incluindo atendimentos realizados fora das unidades da Sesa.

Para quem vive no interior, a localização dos serviços faz diferença no percurso do tratamento
O percurso para acessar os exames começa, em geral, na atenção primária, realizada nos postos de saúde sob responsabilidade dos municípios. Nessa etapa, as equipes avaliam as queixas das pacientes e identificam a necessidade de exames e de atendimento especializado.
A Sesa participa desse trabalho por meio da formação dos profissionais que atuam nos postos de saúde. Segundo o oncologista Jader Sabino, responsável pela linha de cuidado em oncologia da Sesa, essa é uma das frentes de investimento para qualificar o atendimento. “Eu acho que a gente teve um maior fortalecimento da rede de atenção primária à saúde com mais educação continuada, mais educação permanente”, avalia.
Após a avaliação e a solicitação médica, o agendamento é feito pela Central de Regulação, que organiza o encaminhamento ao serviço de referência.
Nas policlínicas, unidades parceiras da Rede Sesa, o atendimento especializado pode incluir consultas com mastologista e exames para investigar alterações nas mamas.
Para essa investigação, seis policlínicas possuem habilitação como Serviço de Referência para Diagnóstico do Câncer de Mama (SDM): Caucaia e Pacajus, na Região de Saúde de Fortaleza; Russas e Limoeiro do Norte, no Litoral Leste/Jaguaribe; e Brejo Santo e Icó, no Cariri. Essas unidades atendem pacientes dos municípios de suas respectivas áreas de abrangência.
A oferta prevista nesses serviços inclui mamografia, ultrassonografia e procedimentos como a biópsia, que permite analisar uma amostra do tecido da mama. Esses recursos ajudam a esclarecer as alterações encontradas e a definir os próximos passos do cuidado.

A experiência de Erlandia no HUC mostra como a rede de atendimento se traduz em cuidado na vida das pacientes
A revisora Erlandia dos Santos Passos, 42 anos, moradora de Maracanaú, percebeu um pequeno nódulo na mama ao tocar o próprio corpo, em casa. Procurou atendimento médico, foi encaminhada à mastologista e realizou uma biópsia, que confirmou um carcinoma invasivo. Hoje faz tratamento no HUC. “Uma das melhores coisas que fizeram foi me enviarem para cá, para o hospital. Estou fazendo quimioterapia e consultas a cada 15 dias, para ver como está o andamento do tratamento”, relata.
O HUC é um dos quatro hospitais da Rede Sesa habilitados como Unidades de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) que atendem pacientes com câncer de mama. Também integram essa estrutura o HGF, o Hospital Regional Vale do Jaguaribe (HRVJ) e o Hospital Regional do Sertão Central (HRSC). Essas unidades oferecem assistência especializada, com avaliação diagnóstica, consultas, cirurgias e tratamentos como a quimioterapia.
A expansão inclui a implantação dos serviços de oncologia no HRVJ, em Limoeiro do Norte, em 2023; e no HRSC, em Quixeramobim, em 2024, ampliando as opções de tratamento nas regiões do Litoral Leste/Jaguaribe e do Sertão Central. Em Fortaleza, a abertura do HUC, em março de 2025, acrescentou um novo hospital à rede de atendimento oncológico.
“Todas as regiões têm assistência oncológica. Todas as regiões fazem mastectomia”, destaca Jader, referindo-se à retirada cirúrgica da mama, realizada conforme a indicação médica. Para a radioterapia, as referências estão nas regiões de Fortaleza, Norte e Cariri.
A assistência também se articula com os Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon) da Santa Casa de Misericórdia de Sobral, na Região Norte, e do Hospital Maternidade São Vicente de Paulo, em Barbalha, no Cariri. Enquanto as Unacons atendem os tipos de câncer mais frequentes, incluindo o de mama, os Cacons possuem estrutura para tratar uma variedade maior de tumores. A oferta de procedimentos depende da habilitação de cada estabelecimento.
Outro ponto de atendimento no interior é o Centro de Atendimento ao Câncer de Crateús, inaugurado em julho de 2025, com custeio estadual.
A articulação entre os postos de saúde, as policlínicas e os hospitais organiza o percurso das pacientes, da suspeita ao tratamento. Com a ampliação dos serviços no interior, mais etapas desse cuidado podem ser realizadas na própria região de saúde, reduzindo a necessidade de deslocamentos para Fortaleza.
Jader Sabino reforça que o trabalho de regionalização e de descentralização dos serviços é um plano contínuo, de acordo com as demandas identificadas. “Nós estamos sempre revisitando o Plano Estadual de Oncologia para manter o atendimento da Rede Sesa alinhado às necessidades da população”, finaliza.

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