
Na prática clínica, muitas consultas por artrose ocorrem em fases de dor mais intensa. O manejo inicial costuma reduzir os sintomas, mas a dor pode voltar em novos episódios. Diretrizes incluem o controle de peso: perder 5–10% do peso corporal está associado à melhora de dor e função, e perdas maiores tendem a trazer ganhos adicionais.
Diante desse cenário, o protocolo proposto integra o controle de peso ao tratamento da artrose, com acompanhamento estruturado e personalizado. Na prática, o plano define metas mensuráveis de dor, função e peso, estabelece a periodicidade dos retornos (por exemplo, quinzenais ou mensais, conforme o caso) e registra critérios para manter, associar, ajustar ou espaçar terapias. A indicação de estratégias de perda de peso é individualizada e alinhada às diretrizes clínicas, podendo envolver orientação de atividade física e acompanhamento multiprofissional, com monitoramento sistemático de evolução e segurança.
E a partir dessa observação, o ortopedista Dr. Vinícius Bonfante, que atua no interior do Rio de Janeiro e tem pós-graduação em Ciências da Obesidade e Sarcopenia, passou a abordar a artrose como uma doença crônica — sem cura, porém controlável — e a organizar o cuidado em planos de acompanhamento com metas, reavaliações e critérios de ajuste.
"Durante anos eu atuava como ‘bombeiro’: apagava a crise, mas via o problema reacender", resume o médico. "O ponto de virada foi criar um plano de acompanhamento e tratar dor e peso no mesmo percurso, quando indicado. A estabilidade clínica aumentou".
O que há de novo
Batizada de Protocolo PRATA — Protocolo Avançado do Tratamento da Artrose, a proposta cria um roteiro longitudinal: define desde a primeira consulta o que medir (dor, função e mobilidade), quando reavaliar e como ajustar condutas. O foco explícito é manter a doença controlada e evitar exacerbações agudas de dor, oferecendo previsibilidade ao paciente. A inovação não está em "uma técnica" isolada, mas na arquitetura do cuidado. As intervenções são indicadas caso a caso e podem incluir injetáveis (ácido hialurônico, hidrogel ou PRP), ondas de choque, laser e ultrassom terapêuticos. E, em situações selecionadas, o protocolo prevê adjuvantes injetáveis como vitamina C e magnésio, respeitando evidências e segurança clínica.
Por que integrar o emagrecimento
A leitura clínica de Bonfante encontrou um gargalo recorrente: parte dos pacientes com artrose convive com excesso de peso, fator que sobrecarrega as articulações e favorece a volta das crises. Por isso, o protocolo passou a integrar estratégias de emagrecimento — quando indicadas — no mesmo plano de cuidado da dor, em vez de tratar os temas em trilhas separadas.
"Quando organizamos dor e peso em um único plano, com metas e reavaliações, os desfechos tendem a ser mais consistentes ao longo do tempo. Não é promessa; é gestão de uma condição crônica. Quando a perda de peso não é indicada — por idade, composição corporal ou contexto clínico —, priorizamos força, mobilidade e dor. O plano continua único, apenas com ênfases diferentes", afirma.
Do caso isolado à política do consultório
A lógica por trás do Protocolo PRATA é deslocar o foco do procedimento para o processo. Em vez de acumular atos pontuais, o consultório passa a operar com calendário de retornos, indicadores simples e critérios transparentes para trocar, associar ou espaçar terapias. O paciente sabe o que esperar e quando voltar, reduzindo idas emergenciais e "sumiços" prolongados que costumam piorar o quadro. Para cidades do interior, onde deslocamentos e acesso a especialistas podem ser mais difíceis, a previsibilidade do plano funciona como um antídoto contra o vai e volta que desgasta pacientes e equipes.
Formação e atuação
Além da residência em ortopedia, Bonfante possui pós-graduação em Ciências da Obesidade e Sarcopenia. E essa interface entre dor articular e composição corporal, que se tornou peça-chave da sua atuação. Com base nessa formação, estruturou um protocolo clínico de atendimento — denominado PRATA — que organiza o manejo da artrose com integração do controle de peso e planos de acompanhamento em consultório.
O que muda para o paciente
Na prática, a consulta inicial estabelece metas factíveis e um plano personalizado. As sessões seguintes reavaliam dor e função, ajustam o tratamento e registram a evolução. Procedimentos — de infiltrações a terapias físicas — são escolhidos por indicação clínica, não por modismo, e podem contar com auxílio de imagem quando necessário. A ideia é controlar a doença, não "curá-la", reduzindo o número e a intensidade das crises ao longo do tempo.
Voz do especialista
"Artrose não tem cura, mas tem controle. Quando o cuidado é fragmentado, o paciente melhora e piora como se estivesse em montanha-russa. Ao desenhar um plano de acompanhamento, tomamos decisões com mais segurança e reduzimos recidivas. O paciente consegue atingir melhores resultados, controlados, e ainda gastando menos", diz Bonfante.
Da experiência à difusão
Os resultados do modelo no interior do estado do Rio motivaram o ortopedista a orientar outros colegas. Hoje, ele ministra mentoria para médicos ortopedistas de diferentes regiões do Brasil, com foco em gestão do cuidado, criação de planos de acompanhamento e organização do consultório para condições como artrose, dor crônica e sarcopenia. A proposta é replicar o que está dando certo — metas, reavaliação e critérios de ajuste — respeitando as particularidades de cada serviço.
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