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Agricultura Seca

Agricultura familiar do Nordeste enfrenta o desafio de produzir na transição para o período de estiagem

Para os representantes dos trabalhadores rurais, o sucesso das feiras juninas é uma prova do potencial do setor

21/06/2026 às 10h07 Atualizada em 21/06/2026 às 10h23
Por: Vanilson Brito
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Agricultura familiar do Nordeste enfrenta o desafio de produzir na transição para o período de estiagem
 
O mês de junho é sinônimo de fartura, faturamento e celebração para milhares de pequenos produtores rurais no Ceará, Maranhão e Piauí. Com a chegada dos tradicionais arraiais juninos, a agricultura familiar encontrou nas feiras e nos polos culturais das grandes capitais uma vitrine lucrativa para comercializar alimentos típicos, artesanatos e hortifrútis diretamente com o consumidor final. No entanto, por trás da festividade, o fim da estação chuvosa na região acendeu um alerta vermelho no campo. Produtores rurais enfrentam o avanço precoce da seca e cobram medidas urgentes de crédito e fiscalização.
 
O cenário atual expõe uma realidade dupla: enquanto os estados injetam recursos estruturais para modernizar as associações, gargalos históricos como o endividamento acumulado, a falta de logística para escoar os grãos e os conflitos gerados pelo uso de agrotóxicos em grandes propriedades vizinhas ameaçam a sustentabilidade dos trabalhadores de subsistência.
 

Nos três estados, governos locais correm contra o tempo para impulsionar a inserção econômica do pequeno agricultor. No Maranhão, a Secretaria de Estado da Agricultura Familiar (SAF-MA) consolidou espaços oficiais de venda dentro dos grandes polos juninos de São Luís, gerando renda direta para os expositores. No sul maranhense, na região de Balsas, as cooperativas celebraram a marca de quase R$ 2 milhões movimentados por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que destina os insumos para populações em situação de insegurança alimentar.
 
No Piauí, o foco está na expansão técnica. A Secretaria da Assistência Técnica e Defesa Agropecuária (SADA) iniciou o balanço de uma nova etapa do programa Fomento Rural, desenhado para beneficiar duas mil famílias vulneráveis. Ao mesmo tempo, a Secretaria da Agricultura Familiar (SAF-PI) finalizou as análises de recursos do Projeto Pilares II, preparando o terreno para a divulgação da lista definitiva de agricultores que receberão novos aportes financeiros do estado.
 
Já o Ceará aposta na modernização mecânica do interior. Após a realização da ExpoAgro Crateús, a Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA-CE) deu sequência à entrega de novos tratores e patrulhas mecanizadas para associações comunitárias. Além disso, o monitoramento do programa Hora de Plantar, que conta com um orçamento robusto de R$ 36 milhões, aponta para a manutenção de safras sustentáveis para cerca de 180 mil produtores cearenses que receberam sementes selecionadas.
 
Apesar dos investimentos, as queixas coletadas junto às lideranças comunitárias revelam que a transição climática desta época do ano traz sérias dificuldades operacionais. O principal fantasma no semiárido piauiense e cearense é o estresse hídrico agudo. A irregularidade das chuvas e o aumento acentuado das temperaturas nas últimas semanas ameaçam as lavouras de sequeiro, como o milho e o feijão, gerando risco iminente de quebra de safra para quem depende do clima para colher.
 
Além do clima, barreiras burocráticas e fiscais geram protestos. No sul do Piauí, produtores rurais manifestaram-se contra a aplicação de multas ambientais pesadas e de rigor sanitário sobre práticas tradicionais de manejo da terra, sob a alegação de que os valores inviabilizam a sobrevivência das famílias. No Ceará, a maior reclamação envolve o escoamento: a escassez de mão de obra para a colheita atual e a falta de estruturas locais para secagem e armazenamento adequado de grãos reduzem drasticamente a margem de lucro na venda direta.
 
No Maranhão, o debate ganha contornos de urgência ambiental e financeira. Com a proximidade do anúncio do novo Plano Safra nacional, produtores reclamam do alto nível de endividamento acumulado de ciclos passados, o que impede o acesso a novas linhas de crédito para o custeio da terra. Para agravar o quadro, pequenas comunidades e aldeias indígenas denunciam a ocorrência de "deriva química", quando a pulverização aérea de agrotóxicos em grandes fazendas vizinhas atinge e destrói lavouras familiares e fontes de água potável no interior do estado.
 
O momento exige um equilíbrio delicado entre a celebração das conquistas e o planejamento estratégico. Para os representantes dos trabalhadores rurais, o sucesso das feiras juninas é uma prova do potencial do setor, mas a sobrevivência a longo prazo dependerá de políticas eficazes de renegociação de dívidas, segurança climática e proteção do território agroecológico.

 
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