
A Universidade Estadual do Ceará (Uece), em parceria com a GreenCare Pharma e outras instituições de ensino de São Paulo, deu início à etapa de organização de uma pesquisa que tem como objetivo aplicar e avaliar uma formulação à base de cannabis medicinal em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), estabelecendo a eficácia e a segurança das doses.
No Ceará, o estudo será conduzido pelo Laboratório de Neurociência e Inovação Translacional (Lanit) e pelo Grupo de Pesquisa e Estudos em Neuroinflamação e Neurotoxicologia (Genit), sob coordenação do professor Gislei Aragão, vinculado ao Instituto Superior de Ciências Biomédicas (ISCB) da Uece.
Segundo o pesquisador, o projeto representa um avanço expressivo para a universidade e para a ciência brasileira, não apenas pela realização da pesquisa diretamente com esses pacientes, mas também porque há o intuito de, a partir dos resultados, ser desenvolvido um produto acessível para a população. “Esse não é apenas um ensaio clínico. Trata-se de um projeto completo de desenvolvimento de um produto à base de cannabis medicinal, que já passou por toda a etapa pré-clínica e agora avança para estudos em humanos”, explica.
O estudo adota o desenho metodológico considerado padrão ouro da pesquisa clínica, sendo duplo-cego, randomizado e controlado por placebo. Ao todo, 120 crianças com TEA participarão da pesquisa, divididas igualmente entre o Ceará e São Paulo. De acordo com o pesquisador Gislei Aragão, a metodologia foi cuidadosamente planejada para garantir a confiabilidade dos resultados. “O ensaio clínico está no topo da pirâmide das evidências científicas. E quando randomizamos essas crianças, ou seja, colocamos ela de forma aleatória em diferentes grupos, de tratamento e de placebo, isso proporciona ainda mais confiabilidade ao estudo. Além disso, o nosso desenho foi pensado para minimizar ao máximo os vieses, garantindo maior robustez e validade aos resultados”, afirma.
A pesquisa tem como foco principal a avaliação dos chamados comportamentos disruptivos, como agitação, agressividade e inquietação, sintomas que podem estar presentes em crianças com TEA e que, em alguns casos, exigem tratamento farmacológico. “Hoje, as opções medicamentosas são limitadas e, em geral, envolvem o uso de antipsicóticos, que podem causar muitos efeitos colaterais. A ideia é oferecer um produto farmacológico com maior segurança e menos efeitos adversos para determinados casos do TEA”, destaca o professor.
As crianças participantes serão acompanhadas por uma equipe multiprofissional formada por neuropediatras e psiquiatras infantis, com avaliações clínicas semanais ao longo de três meses. Também serão realizados exames laboratoriais antes e após o período de intervenção, como forma de monitorar a segurança do tratamento. Segundo o coordenador da pesquisa no Ceará, o estudo avaliará diferentes doses da formulação para identificar uma referência mais adequada para a maioria dos pacientes. “A resposta à cannabis pode variar muito entre os indivíduos, por isso é fundamental estudar diferentes dosagens para estabelecer parâmetros mais seguros e eficazes”, explica o professor Gislei Aragão.
Caso a eficácia e a segurança desta formulação rica em canabidiol sejam confirmadas, os resultados poderão trazer impactos significativos para famílias, profissionais da saúde e para o próprio Sistema Único de Saúde (SUS). “Isso traz mais segurança para o médico prescrever, para a família utilizar e para a sociedade ter acesso a um produto testado e validado cientificamente, diferente de muitos que hoje circulam sem controle ou padronização”, observa o pesquisador. Ele ressalta ainda que o objetivo é que o produto desenvolvido possa, futuramente, ser incorporado ao SUS. “Com um ensaio clínico desse porte, o sistema público passa a ter uma base científica sólida para avaliar o uso desse medicamento”, pontua.
O professor reforça que todo o estudo será conduzido com rigor ético e total independência científica. “Nosso compromisso é com a ciência. Os resultados serão publicados, independentemente de serem positivos ou não. Não estamos aqui para prometer cura, mas para produzir conhecimento confiável que ajude famílias e profissionais a tomarem decisões”, afirma. Para a Uece, o projeto consolida a instituição como referência nacional e internacional em pesquisa translacional. “Um estudo dessa magnitude coloca a universidade em evidência no cenário científico global e fortalece o papel da pesquisa desenvolvida no Nordeste”, conclui Gislei Aragão.
A etapa de organização foi iniciada. A fase de seleção dos participantes e de aplicação clínica do produto rico em canabidiol está prevista para ser realizada entre o segundo semestre de 2026 e o primeiro semestre de 2027. Para essa etapa, os pesquisadores contarão com a parceria do Instituto da Primeira Infância (Iprede), de onde serão selecionadas as crianças com TEA.
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