
A inteligência artificial (IA) tornou-se, nos últimos anos, parte da realidade da população: 93% dos brasileiros afirmaram utilizar essa tecnologia, segundo uma pesquisa da Fundação Itaú e do Datafolha. Por outro lado, 46% dos entrevistados disseram não entender o significado do termo, revelando que há quem use IA sem realmente compreendê-la.
Outro desafio trazido pelo avanço tecnológico é diferenciar conteúdos autênticos de materiais artificialmente produzidos. Em um estudo conduzido pela Microsoft, 12,5 mil participantes avaliaram 287 mil imagens com o objetivo de dizer quais eram reais e quais foram geradas por IA. A taxa de acerto ficou em 62%, resultado classificado como "modesto, pouco acima do acaso" pelos autores do estudo.
Para o advogado e pesquisador em tecnologia da Universidade de Brasília (UnB) José de Souza Junior, diretor do Grupo RG Eventos, o principal problema não está no avanço tecnológico, mas no descompasso entre a velocidade da inovação e a capacidade da sociedade de compreendê-lo e regulá-lo.
Ele cita especificamente o caso de imagens hiper-realistas, vídeos manipulados e áudios sintéticos — conhecidos como deepfakes —, que circulam com facilidade pelas redes sociais e aplicativos de mensagens.
"As pessoas veem fotos em que Donald Trump aparece como presidente da Venezuela ou uma que mostra Nicolás Maduro capturado por forças de elite. Nada disso é real, mas a imagem convence", exemplifica Souza Junior.
O pesquisador diz que, no Brasil, onde sete a cada dez pessoas se informam prioritariamente pelas redes sociais, o impacto tende a ser mais significativo. "Muitos usuários não estão acostumados a validar se a informação é verdadeira. Quem não viveu a transição digital tende a acreditar no que vê: uma foto, um vídeo, um texto", afirma. A facilidade de compartilhamento em aplicativos como o WhatsApp, segundo ele, reforça o poder de convencimento, mesmo quando o conteúdo é falso.
Pesquisas acadêmicas ajudam a explicar o fenômeno, acrescenta. Estudo do MIT Sloan School of Management, publicado na revista Science e repercutido pela Superinteressante, indica que notícias falsas se propagam até seis vezes mais rápido do que informações verdadeiras, especialmente quando despertam emoções intensas. A inteligência artificial, ao tornar esse tipo de conteúdo mais sofisticado, potencializa esse efeito, diz Souza Junior.
A preocupação aumenta com a proximidade de períodos eleitorais. Para o pesquisador, o cenário é delicado porque "muitas vezes o boato constrói uma convicção. Mesmo que depois se comprove que é falso, a dúvida já foi instalada. E a dúvida convence", alerta.
No campo jurídico, o desafio é estrutural. "Existe um lapso temporal muito grande entre a inovação tecnológica e a regulamentação. A tecnologia evolui diariamente; a lei, não", avalia.
Ele questiona como aplicar instrumentos tradicionais do direito eleitoral, como o direito de resposta, em um ambiente dominado por conteúdos gerados por IA. "Como garantir um direito de resposta quando a imagem falsa já foi replicada milhares de vezes?"
Enquanto a União Europeia avança com iniciativas como o AI Act, que estabelece critérios de transparência e classificação de riscos para sistemas de inteligência artificial, o Brasil ainda debate projetos de lei que buscam equilibrar inovação, liberdade de expressão e proteção contra abusos tecnológicos, lembra Souza Junior.
Para ele, o enfrentamento do problema vai além da legislação. "A inteligência artificial está transformando a forma como as pessoas pensam, percebem a realidade e se comportam. É uma nova era", avalia. Nesse contexto, Souza Junior destaca a educação digital como ferramenta essencial para reduzir os impactos da desinformação.
Com atuação na interseção entre direito, tecnologia e governança, o pesquisador alerta que o maior risco não é apenas a criação de realidades artificiais, mas a erosão gradual da confiança coletiva. "Gerar dúvida já é suficiente para influenciar decisões. Isso muda completamente a forma como a sociedade escolhe e decide", conclui.
Para saber mais, basta seguir o profissional no LinkedIn:
https://www.linkedin.com/in/josejunior-adv/
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