
Apesar do discurso cada vez mais frequente sobre decisões orientadas por dados, grande parte das empresas ainda utiliza relatórios, dashboards e indicadores mais como instrumentos de validação do poder do que como ferramentas reais de transformação organizacional. O alerta é de Adeildo Nascimento, CEO da DHEO Consultoria e especialista em cultura organizacional, que analisa o que chama de "teatro da decisão baseada em dados" dentro das corporações.
"Hoje se fala muito em BI, dashboards e análise de dados, mas poucas empresas estão realmente preparadas para permitir que os dados contrariem opiniões já estabelecidas. Quando a análise não muda a decisão, ela vira apenas decoração corporativa", afirma Nascimento. "Uma cultura madura é aquela em que os dados têm força para alterar rotas. Na cultura teatral, os dados apenas mudam o slide da apresentação", complementa.
O especialista explica que esse processo costuma acontecer em diferentes níveis da estrutura corporativa. "Enquanto analistas produzem informações e coordenadores levam os dados para as reuniões, as decisões finais continuam concentradas em lideranças que, muitas vezes, filtram ou reinterpretam os números de acordo com interesses já definidos. Existe uma diferença enorme entre tomar decisões com base em dados e usar dados para sustentar decisões já tomadas. Esse é o grande paradoxo das empresas atualmente: muito dado e pouca abertura real para mudar", diz Adeildo.
Mudanças culturais profundas
Para transformar o discurso em prática, Nascimento defende mudanças culturais profundas. Entre elas, definir previamente o que uma análise pretende transformar, estimular abertura genuína para revisão de opiniões e ampliar a autonomia das equipes. "Se nenhuma informação tem capacidade de mudar a direção escolhida pela liderança, então não existe cultura data driven. Existe apenas centralização de poder com estética analítica", pontua.
O CEO da DHEO Consultoria também destaca que o desafio não está em substituir líderes por tecnologia, mas em criar ambientes em que informações inconvenientes possam ser consideradas sem resistência. O objetivo não é tirar o papel da liderança, mas impedir que os dados sejam usados apenas como enfeite organizacional. "Quando a empresa ignora análises relevantes porque elas confrontam crenças internas, ela perde inteligência coletiva, engajamento e capacidade de evolução", observa.
Na avaliação do especialista, organizações que insistem nesse modelo acabam comprometendo um dos principais ativos corporativos, que é o capital intelectual disponível nas equipes. "Mais cedo ou mais tarde, as pessoas percebem quando estão participando apenas de um teatro organizacional. E, quando isso acontece, há desengajamento, perda de confiança e redução da colaboração estratégica", conclui.
Vídeo completo está disponível neste link.
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