Saúde Polilaminina
Polilaminina: avanços e desafios da pesquisa
Substância pode abrir caminho para tratamento de lesões medulares
09/03/2026 09h25
Por: Vanilson Brito

A polilaminina, descoberta por acaso pela professora Tatiana Sampaio Coelho, da UFRJ, surgiu quando moléculas de laminina se uniram em laboratório, formando uma rede inédita. Essa estrutura mostrou potencial para servir de base ao crescimento dos axônios — prolongamentos dos neurônios responsáveis pela transmissão de sinais elétricos e químicos —, o que poderia restabelecer a comunicação entre cérebro e corpo em casos de lesão medular.

Os estudos começaram há mais de 25 anos e, inicialmente, concentraram-se em testes laboratoriais e em animais. Entre 2016 e 2021, um projeto-piloto aplicou a substância em oito pacientes com lesão completa da medula. Cinco deles apresentaram ganhos motores, ainda que parciais, como sensibilidade e movimentos em regiões antes paralisadas. O caso mais emblemático foi o de Bruno Drummond de Freitas, que após fratura no pescoço recuperou movimentos e hoje anda normalmente, embora com algumas limitações nas mãos.

Apesar dos resultados promissores, especialistas ressaltam que eles não são suficientes para comprovar a eficácia científica da polilaminina. Isso porque até 15% dos pacientes com lesão completa podem recuperar movimentos naturalmente, e diagnósticos iniciais podem ser influenciados por inflamações ou inchaços.

Atualmente, a pesquisa está entrando na fase 1 dos ensaios clínicos, autorizada pela Anvisa. Essa etapa busca verificar a segurança da substância em humanos e será realizada em cinco voluntários com lesão medular aguda, entre as vértebras T2 e T10, no Hospital das Clínicas da USP. Diferentemente do padrão, os testes não serão feitos em pessoas saudáveis, mas em pacientes graves, o que permitirá observar indícios de eficácia já nesta fase inicial.

Se avançar, o estudo seguirá para a fase 2, com mais voluntários e diferentes dosagens, e depois para a fase 3, que envolve grupos maiores e comparações com tratamentos já existentes. A expectativa é concluir todas as etapas em cerca de dois anos e meio.

Pesquisadores e órgãos reguladores destacam que, embora haja esperança, é essencial cumprir rigorosamente cada fase para garantir segurança e resultados confiáveis. A polilaminina representa uma possibilidade inédita para milhões de pessoas com lesão medular, mas ainda precisa superar os desafios científicos e regulatórios antes de se tornar uma alternativa terapêutica real.