Brasil Justiça
Primo expõe tentativa de abuso aos 14 anos por desembargador que inocentou réu por estupro em MG
Saulo Láuar, de 42 anos, diz que repercussão do caso de menina de 12 anos no qual Magid Nauéf Láuar foi relator o fez falar pela primeira vez do que viveu
25/02/2026 14h48
Por: Fabio Brito Fonte: O Globo

O desembargador Magid Nauéf Láuar, responsável pelo voto inocentando o réu por estupro de vulnerável que prevaleceu entre os colegas do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, é investigado pela Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) após ser alvo de acusações de abuso. Nesta terça-feira, duas vítimas foram ouvidas por representantes do órgão no interior do estado. Um dos relatos é do servidor público Saulo Láuar, de 42 anos, primo em segundo grau do magistrado.

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Ele afirma que o magistrado tentou abusar sexualmente dele na adolescência, quando tinha 14 anos e trabalhava com o parente. Ao GLOBO, ele relatou que decidiu falar pela primeira vez publicamente sobre o ocorrido depois da repercussão da decisão capitaneada por Magid Láuar.

— Estava levando a minha vida com esse trauma da maneira que dava. Mas me vi na obrigação de não deixar isso passar e resolvi denunciar — conta Saulo em sua primeira entrevista sobre o caso. — Nunca tinha falado sobre o que passei. Minha mãe só soube depois de anos, e mais ninguém. Era um segredo meu.

Nas redes sociais, em postagem de grande repercussão, Saulo narrou que o abuso só não se consumou porque ele conseguiu fugir:

— O que ele fez comigo causou muita tristeza. Uma tristeza latente. Ela fica ali. Se mistura com outras dores, alimenta outras dores. E também uma vontade de estar sempre fugindo, necessidade de me esconder o tempo todo.

Na mesma publicação, uma mulher comentou afirmando ter sido “vítima dessa mesma pessoa”. Ela também foi ouvida pela Corregedoria do CNJ ontem. Já o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) informou que recebeu “uma representação noticiando os fatos em questão” e também instaurou procedimento administrativo para apuração de eventual falta funcional.

“Na época, eu e minha irmã trabalhávamos para a família dele, eu trabalhava para a irmã, e a minha irmã para a mãe. Eu era nova, confiava naquele lugar e guardei tudo em silêncio por muito tempo. A gente tenta seguir a vida, fingir que esqueceu, mas não esquece. Fica guardado na memória, no corpo e na alma. Seu desabafo trouxe à tona lembranças difíceis, mas também me fez perceber que o silêncio só protege quem errou. Hoje me recuso a continuar calada”, escreveu a mulher na postagem de Saulo.

De acordo com o servidor público, a publicação foi um “desabafo” sobre o que viveu, uma vez que comoção pelo caso da menina de 12 anos fez ressurgir “todo o episódio”. Ele era office boy do primo e, àquela altura, o admirava.

— O meu relato ganhou uma proporção que é resultado de um desconforto social causado pela absolvição no caso que ele julgou — resume.