A expressiva taxa de retorno de “IPCA + 8%”, que desde junho tem sido apontada como uma oportunidade histórica de investimento, transformou-se em um desafio para a gestão da dívida pública brasileira. A despeito do alto nível de rendimento oferecido pelos títulos, a escassez de compradores no mercado secundário elevou a pressão para uma eventual intervenção do Tesouro Nacional.
O cenário expõe divergências entre analistas e especialistas quanto à sustentabilidade do atual nível dos juros, às causas da baixa liquidez e às estratégias mais adequadas para a condução das emissões públicas.
A discussão ganhou tração no mercado financeiro após o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, sinalizar que o órgão está preparado para efetuar operações de recompra de papéis caso haja novos disparos nas taxas. Ceron ressaltou que a elevação dos juros não deve ser atribuída exclusivamente ao risco fiscal interno.
Embora a disposição do Tesouro de intervir traga certo alívio em termos de liquidez, a exemplo de medidas adotadas durante a pandemia em 2020 e durante o conflito entre Estados Unidos e Irã no início de 2026, estrategistas do mercado ponderam que a deterioração da trajetória fiscal e o crescimento anual contínuo da dívida pública permanecem como o motor primário para a inclinação da curva de juros.
A falta de tração na demanda, sobretudo pelos títulos atrelados à inflação (NTN-B), é atribuída ao desequilíbrio entre uma oferta volumosa de papéis, impulsionada pelo déficit nominal, e restrições na capacidade de absorção de grandes investidores institucionais. Fundos de previdência privada vêm registrando retração na captação líquida devido à incidência de IOF de 5% sobre contribuições do tipo VGBL, enquanto fundos de pensão, já abastecidos de títulos indexados à inflação suficientes para cumprir suas metas atuariais, mantêm-se menos ativos nas novas alocações.
A definição sobre a existência de uma disfuncionalidade no mercado dividi analistas: enquanto parte dos especialistas avalia que a presença, mesmo que reduzida, de compradores afasta a necessidade de atuação estatal, outros apontam que a perda de profundidade no mercado secundário justifica a recompra de ativos utilizando o colchão de liquidez da dívida. Diante dessa dicotomia, o Tesouro tem adotado uma postura cautelosa, reduzindo a escala dos leilões para conter a volatilidade.
Entre os analistas que defendem a atuação do governo, há ponderações de que eventuais recompras deveriam focar em títulos prefixados e na redução do risco dos leilões (medido pelo indicador DV01), evitando comprimir as taxas reais de forma artificial. Para o investidor que já possui papéis na carteira, uma eventual intervenção do Tesouro direcionada ao alívio da curva de juros tende a valorizar o preço dos ativos já emitidos por meio do mecanismo de marcação a mercado.