A permanência do ex-presidente Jair Bolsonaro em regime de prisão domiciliar, fora do Complexo Penitenciário da Papuda, está sob a análise do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Cabe ao magistrado avaliar se renovará ou não o benefício que havia sido concedido ao ex-mandatário por motivos de saúde. Embora a expectativa majoritária entre os aliados políticos de Bolsonaro seja pela prorrogação da medida, os bastidores que envolvem o caso mudaram significativamente desde que a ida para casa foi autorizada pela primeira vez.
Diferente do cenário atual, a concessão inicial da prisão domiciliar foi fruto de uma intensa articulação política liderada por membros do Partido Liberal (PL) e pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Na ocasião, Michelle chegou a se reunir reservadamente com o ministro Alexandre de Moraes para apelar pela mudança de regime, fundamentando o pedido no estado de saúde do marido. Atualmente, o processo de renovação tramita de forma estritamente jurídica por meio da equipe de advogados de defesa do ex-presidente, sem a mobilização partidária que marcou o trimestre anterior.
Essa ausência de Michelle Bolsonaro nas negociações recentes reflete uma reconfiguração de forças nos bastidores da legenda. Após a consolidação da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro à presidência, a ex-primeira-dama perdeu o protagonismo que mantinha na sigla. Anteriormente cotada para encabeçar uma chapa majoritária ou figurar como candidata a vice-presidente, ela optou por se afastar das atividades diretivas do PL e não tem participado da construção da campanha do enteado. Oficialmente, Michelle justifica o distanciamento pela necessidade de focar nos cuidados de saúde de Bolsonaro e na rotina familiar, embora integrantes do partido já comentem abertamente sobre seu sumiço político.
Essa perda de espaço interno não anula o peso político do ex-presidente perante o eleitorado conservador. O cientista político Rafael Cortez avalia que o bolsonarismo enfrenta um dilema específico, no qual dinâmicas familiares e estratégias eleitorais acabam se confundindo. Segundo a análise, as constantes tensões entre Michelle Bolsonaro, os filhos do ex-presidente e o atual projeto político-eleitoral focado em Flávio Bolsonaro têm centralizado os debates internos e moldado os novos rumos do movimento.