Em entrevista ao Jornal Verdes Campos desta sexta-feira (22), o delegado Charles Pessoa comandante do DRACO-PI, detalhou as estratégias de combate ao crime organizado, a pacificação do sistema penitenciário e os desafios da segurança pública.
Uma das frentes mais recentes de atuação do departamento é o combate à apologia ao crime no ambiente virtual. O delegado citou como exemplo uma operação recente, coordenada pelo DRACO, que abrangeu 11 municípios entre o Piauí e o Maranhão. O alvo foram indivíduos que utilizavam redes sociais para propagar a ideologia de facções e cooptar novos membros.
"As facções criaram departamentos focados apenas em gerenciar redes sociais e comunicação. O alcance dessas ações criminosas ultrapassa as barreiras do Estado, e estamos atuando para neutralizar essa estrutura de aliciamento de jovens", explicou Charles Pessoa.
Um dos pontos altos da entrevista foi a transformação do sistema penitenciário piauiense. O delegado, que também atuou no sistema penal federal, relatou que o controle rigoroso começou a ser desenhado ainda em 2011, mas ganhou força total em 2020.
De acordo com Pessoa, as unidades de regime fechado do Piauí hoje são modelo para o Brasil.
"Nós retiramos mais de 97 mil pilhas e carregadores improvisados e mais de 100 celulares por semana na época crítica. Acredite: desde 2020, o sistema penitenciário piauiense não registra fugas, rebeliões ou a entrada de drogas e aparelhos celulares nas unidades de regime fechado", ressaltou.
Durante a entrevista, o delegado Charles Pessoa detalhou a "Operação Últimos Stories", o trabalho preventivo com mais de 80 mil estudantes e a necessidade urgente de mudanças no Código Penal.
A atuação das organizações criminosas ultrapassou as barreiras físicas e chegou com força ao ambiente virtual. Para combater essa nova frente, as forças de segurança do Piauí têm intensificado operações integradas e o monitoramento digital.
Segundo o delegado, o modelo de integração entre as polícias do Piauí, Ceará e Maranhão tem gerado resultados expressivos e já é visto como referência nacional. Uma das ações mais recentes fruto desse alinhamento foi a Operação "Últimos Stories", deflagrada nesta semana.
O delegado compartilhou dados de sua própria experiência profissional. Em 17 anos de carreira, ele calcula ter entrevistado cerca de 4.000 criminosos, acumulando quase 8.000 horas de conversas. O diagnóstico é claro: a entrada no crime quase sempre ocorre na adolescência, impulsionada por falhas do Estado e, principalmente, pelo distanciamento familiar.
"Muitos desses jovens entraram para o mundo da criminalidade porque não tiveram a oportunidade de ouvir uma versão contada pelo Estado, apenas a versão dos criminosos. Nós mostramos nas escolas qual é a realidade: deixar de ser um orgulho para a família para causar dor à própria mãe."
Durante o bate-papo, o delegado foi questionado por ouvintes sobre a falta de interesse político em reformar o Código Penal. Para Pessoa, a inércia em Brasília pode ser explicada pelo fato de que muitos parlamentares não vivenciam as dores e a realidade da criminalidade na prática.
"Eles não sentem na pele o que a sociedade sofre diariamente. Além disso, muitos desconhecem os detalhes e as complexidades da segurança pública. Isso contribui para que a revisão da legislação não seja tratada com a urgência necessária", explicou o delegado.
O sucesso das operações do DRACO tornou Charles Pessoa uma figura de destaque na mídia piauiense, o que levantou rumores sobre uma possível candidatura nas eleições deste ano. No entanto, o delegado descartou a possibilidade no momento, reafirmando seu foco na segurança pública.
"As decisões políticas cabem aos políticos. Meu trabalho é continuar focado na missão que recebi do governador Rafael Fonteles: combater as facções e proteger as famílias piauienses. A política partidária eu deixo para depois de julho, se for o caso", concluiu.
Ao final da transmissão, o delegado recebeu dezenas de mensagens de ouvintes de várias cidades, incluindo Altos, Boqueirão do Piauí e Coelho Neto (MA), que elogiaram a atuação firme do DRACO contra a criminalidade na região.