A noite de ontem não foi apenas mais uma eliminação dolorosa para a vasta coleção recente do São Paulo. A derrota por 3 a 1 para o Juventude, no Alfredo Jaconi, foi o epitáfio de um planejamento natimorto e o retrato mais fiel de um clube que parece ter esquecido sua própria grandeza. Ao ser despachado da Copa do Brasil, o Tricolor não apenas deu adeus a um título; ele escancara dia a após dia o abismo institucional que o transformou, nas palavras de seus próprios entusiastas e críticos, no pior momento de sua história quase centenária.
O teatro do absurdo em Caxias do Sul
O que se viu no Rio Grande do Sul foi a materialização do caos. O roteiro da eliminação teve requintes de crueldade e amadorismo. Perder Luciano por lesão aos 40 minutos do primeiro tempo já era um golpe duro, mas o que se seguiu beirou o inacreditável: Ferreirinha, o substituto escolhido para salvar a noite, conseguiu ser expulso apenas 30 segundos após pisar no gramado por uma agressão gratuita.
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Jogar com um a menos por mais de 50 minutos contra um Juventude organizado foi o preço alto de um elenco emocionalmente fragilizado. Nem mesmo o gol de Tapia, que deu uma sobrevida momentânea, foi capaz de esconder a apatia tática de um time que assistiu passivamente ao gol de Mandaca nos acréscimos, selando o 3 a 1 e o 3 a 2 no agregado.
A queda de Roger Machado: Um alento ou um sintoma?
A demissão de Roger Machado, anunciada poucas horas após o apito final, era inevitável, mas está longe de ser a solução definitiva. Em apenas 17 partidas, Roger se tornou o rosto de uma equipe sem identidade. Porém, ele é apenas o mais recente peão em um tabuleiro onde o Rei e a Rainha — a diretoria e o conselho — parecem perdidos.
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O São Paulo vive um 2026 que muitos já previam como catastrófico. Com uma dívida asfixiante que ronda os R$ 900 milhões e um ambiente político inflamado por eleições iminentes, o clube trocou a excelência que o rotulou como "Soberano" por uma rotina de vexames. Quando ídolos e técnicos do calibre de Hernán Crespo vêm a público dizer que este é o "pior momento da história", não se trata de pessimismo, mas de um diagnóstico clínico de uma instituição em falência técnica e administrativa.
O diagnóstico da crise
- Instabilidade Política: Em ano eleitoral, o MorumBIS tornou-se um "caldeirão" onde os interesses de poder superam o planejamento esportivo.
- Descalabro Financeiro: A falta de fôlego no caixa impede contratações de peso e gera atrasos que minam a confiança do elenco.
- Vexames Sequenciais: A eliminação para o Juventude se soma a um histórico recente de quedas precoces e atuações apáticas no Brasileirão, no qual ainda figura no topo da tabela, mas com um futebol de time que luta nas posições inferiores.
O que resta?
O São Paulo hoje é um gigante que caminha no escuro. A mística da camisa, que outrora intimidava adversários, hoje parece pesar nas costas de jogadores que sucumbem ao primeiro sinal de pressão. O clube precisa de mais do que um novo técnico; precisa de um choque de realidade e de uma gestão que entenda que o "Soberano" não se sustenta apenas com troféus de museu.
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A eliminação de ontem foi o fundo do poço? Para o torcedor são-paulino, o medo real é que, sob a atual direção, o poço ainda tenha alguns degraus abaixo. O centenário se aproxima sob a sombra do rebaixamento moral e esportivo, e o tempo para reformas estruturais está se esgotando.
O veredito é claro: O São Paulo não foi apenas eliminado da Copa do Brasil; ele está sendo eliminado, aos poucos, do protagonismo do futebol brasileiro.