A divulgação da pré-lista de 55 nomes para a Copa do Mundo de 2026 trouxe consigo o déjà-vu mais previsível do futebol nacional: a presença de Neymar Jr. Mesmo após anos de um futebol burocrático, lesões em série e uma transferência de retorno ao Santos que, embora romântica, sublinha o afastamento do topo da pirâmide europeia, o atacante segue orbitando o universo da Seleção. A pergunta que ecoa nos botecos e redações não é mais "quando ele voltará a ser o melhor do mundo", mas sim: por que ainda insistimos?
O Fantasma do protagonismo ausente
Se analisarmos os frios números de 2024 e 2025, a convocação de Neymar beira o inexplicável sob a ótica da meritocracia esportiva. No Al-Hilal, sua passagem foi marcada por mais tempo no departamento médico do que em campo. No Santos, em 2026, ele alterna lampejos de genialidade com uma visível falta de intensidade física, acumulando notas modestas em jogos de menor expressão.
Foto: Reprodução/Al-Hilal
Enquanto jovens como Endrick, Estêvão e Vinícius Jr. pedem passagem com a energia de quem quer conquistar o mundo, a inclusão de Neymar na pré-lista parece uma tentativa da CBF de segurar um cobertor de segurança que já não aquece mais. É o "futebol de nome" vencendo o "futebol de desempenho".
A redoma de vidro da mídia
O fenômeno mais curioso, entretanto, não está apenas na mente de Carlo Ancelotti, mas nos microfones da imprensa esportiva. Existe uma parcela considerável da mídia que atua como uma espécie de "advocacia administrativa" do craque. O argumento é sempre o mesmo: “Ele é o único que pode decidir em um lance” ou “O grupo precisa da experiência dele”.
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Essa insistência revela uma dependência emocional — e comercial. Neymar ainda é o maior produto do futebol brasileiro. Defendê-lo não é apenas uma análise técnica (muitas vezes insustentável), mas uma manutenção do status quo. Admitir que Neymar é hoje um jogador comum para os padrões de uma Copa do Mundo é admitir que o Brasil perdeu sua maior referência sem ter construído outra de igual apelo midiático.
O Risco Ancelotti
O técnico italiano, mestre na gestão de egos, declarou recentemente que a decisão "não será fácil" e que pesará o ambiente do vestiário. É um sinal perigoso. Se a convocação final, prevista para o próximo dia 18 de maio, confirmar Neymar entre os 26, a mensagem será clara: o vestiário e a história valem mais do que o momento.
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"Levar Neymar para os EUA em 2026 sem que ele apresente um futebol de elite é transformar a Seleção em uma turnê de despedida, quando o que o torcedor exige é uma busca obstinada pelo Hexa."
O Brasil de 2026 tem talentos de sobra para caminhar sem muletas. A insistência em Neymar e o coro midiático que a sustenta são sintomas de um país que tem medo de olhar para o futuro e descobrir que o seu antigo "salvador" já não consegue carregar o piano. Se ele for à Copa, que seja pelo que entrega no gramado, e não por um serviço prestado que já prescreveu há dois ciclos mundiais.